26 de out de 2013

Agroecologia pra quê?

Muito se fala sobre Agroecologia... Pouco se aprofunda sobre o assunto nas mídias sociais e demais  canais de informação pública.

Para nós, a atual função da Agroecologia é devolver a sensação de pertencimento e Unidade com o fluxo da Vida.
Aline limpando canteiros para re-vitalização da Horta-Jardim
Cobrindo os canteiros com palhas de capim para alimentar o solo, proteger do vento e das chuvas, manter a umidade e
contribuir para organização da diversidade de vida invisível que mora na terra.
Compreendemos que produzir alimentos é produzir VIDA, é perceber a realidade flexível do Planeta em que vivemos. Neste contexto, Agroecologia é a oportunidade de aprendizado para que possamos voltar a nos relacionar com o mundo como um ser vivo e a con-viver com demais formas de vida, de modo harmonioso e gentil.
Da combinação entre solo, sementes e água nasce uma explosão de vida produtiva: 
alimentos, plantas medicinais e riqueza de matéria orgânica... 

Princípios ecológicos ensinam como a vida se organiza há 4,6 bilhões de anos no planeta... Estamos em uma REDE interdependente e interligada de vida. 

Eis que nasce uma flor. A abelha precisa da flor para fazer o mel. A flor precisa da abelha para ser polinizada. Um dia a flor se transforma em fruto. O pássaro precisa se alimentar do fruto. O vegetal precisa que os animais comam seus frutos para poder espalhar suas sementes. A semente precisa da chuva. A chuva precisa que a semente se torne uma planta para poder aparar sua descida do alto do céu, escorregar pelas folhas para não machucar o chão e descer para as profundezas da terra para alimentar nascentes.

A natureza só existe porque é biodiversa. Quanto maior a diversidade de vida, maior a capacidade de um sistema vivo se adaptar às mudanças e se re-generar. É esta capacidade de auto-transcendência que torna a vida criativa. Os ciclos vitais ensinam sobre flexibilidade e impermanência. Há ciclos nas águas, nos minerais, na reprodução, nos alimentos e na morte como experiência de transformação, de modo que VIDA É MOVIMENTO... incessante e criativo do retorno às origens.

Quando relacionamos estes princípios com o contexto da produção de alimentos, entendemos que só há razão para cooperar com a dinâmica que torna a existência possível no planeta.

Vida é fluxo. A vida precisa da vida... e assim nos posicionamos como observadores que despertaram potencial sensível e intuitivo.

Organizamos um agrossistema de forma cooperativa com o ambiente e com as outras espécies. Reproduzimos, assim, uma co-evolução memorável na escala do tempo que perpetua mudanças em busca da re-generação.

Muito mais do que produzir alimentos, queremos produzir VIDA... Isso é Agroecologia!

Plantio consorciado de espécies em sistema agroflorestal: Sítio Arca de Noé-Sapucaia-RJ

Quer ver um exemplo?

Pragas, ervas daninhas, empobrecimento do solo, perda de perenidade das nascentes, desertificação. Resultados da nossa incapacidade de observar os princípios ecológicos da biodivesidade, cooperação e movimentações cíclicas. Na verdade, estes personagens tratados como vilões são, na verdade, agentes de transformação que atuam como sinais indicadores do desequilíbrio e agentes otimizadores da vida em um sistema vivo.

A implantação de um sistema de monocultura, seguido pelo uso de adubos químicos e herbicidas significa silenciar a voz da terra. Neste contexto, o movimento agroecológico vem sendo construído ao longo dos últimos anos em que se intensificou a industrialização da Agricultura, chamada Revolução Verde.

A morte das paisagens e suas funções ecológicas

O cerrado brasileiro foi reduzido a 2% do ecossistema original; as florestas de araucárias, atlânticas, amazônicas, pantanenses e caatinga, em permanente devastação; a utilização inconsequente de adubos químicos e herbicidas contamina lençóis freáticos, envenena animais e prejudica a saúde. Isso tudo sem contar que 70% das reservas de água doce do Planeta Terra são utilizadas de forma nociva e imediatista com irrigação.

Monocultura, homogeneidade, maquinários industriais, menosprezo ao saber popular tradicional, perda da agrobiodiversidade, perda de antigos hábitos alimentares, desrespeito à universalidade das sementes, adubos químicos, agrotóxicos, transgenia, alimentos e pessoas intoxicadas.

Isso tudo sem contar com o êxodo rural em que famílias tradicionais são expulsas do campo, em razão de uma agricultura voltada para o latifúndio.

Quando se percebe que a grande maioria dos danos ambientais, sociais e humanos estava sendo causada pela agricultura, o movimento agroecológico surge como um movimento a favor da preservação da vida!

A agroecologia é resultado do processo de observação da realidade

Precisamos conviver com a dinâmica do que é vivo para despertar em nós a sensibilidade de tudo aquilo que é, de fato, real. Valorizar a arte de produção da vida... é valorizar as sementes, a simplicidade, a percepção cíclica, o tempo de espera do amadurecimento, da colheita. Perceber as relações nos ciclos da terra: generosidade e abundância.

Para isso, recorremos à sabedoria popular tradicional e ao intercâmbio na diversidade cultural, com a finalidade de popularizar práticas e facilitar acessos a uma alimentação saudável e diversificada para ser distribuída, de forma justa e solidária.

Manejo de bananeiras: colheita de frutas e alimento para o solo do Agrossistema

Orgânico X Agroecológico

O objetivo do movimento agroecológico é produzir a cultura de cuidado, tendo por princípio o conhecimento popular tradicional, por base a produção diversificada de alimentos saudáveis em pequena escala e por método a construção coletiva fundada na troca de saberes. 

O produto agroecológico incentiva a agricultura familiar. Por isso, em nada se compara ao sistema de certificação dos produtos orgânicos, cuja única orientação é a certificação. O sistema de certificação orgânica é fruto da exigência de padrões quantitativos dos produtos que podem, ou não, tornar determinada produção como passível de receber um selo de qualidade. Pouco importa se a produção é diversa, ou não... se é respeitada a sustentabilidade dos recursos naturais locais, ou não. Desse modo, é possível que existam monoculturas com certificação orgânica, por exemplo.

A valorização das famílias do campo

Compreendemos os agricultores familiares como verdadeiros guardiões dos saberes da terra. São pessoas que interagem com o sistema onde vivem, pois organizam as suas vidas a partir das estações e ciclos alimentares. Mais do que produtores de alimentos, são produtores de vida! Sem eles, não estaríamos aqui!

Há milhares de anos, mantém o conhecimento tradicional acumulado sobre as medicinas da floresta e a técnica de preservar e guardar sementes... proporcionando a continuidade dos ciclos da agricultura e a preservação da soberania alimentar dos Povos.

Estes agricultores são os portadores da agrobiodiversidade natural, a qual vem sendo substituída por novas variedades criadas em laboratórios. O resultado é a perda do potencial de adaptabilidade adquirido por anos de experiência na agricultura familiar ancestral, além da vulnerabilidade às pragas e doenças comuns nas culturas homogêneas em áreas contínuas.

Espécies transgênicas, por exemplo, são criadas para produzir espécies plantas estéreis (não são capazes de produzir novos descendentes), de forma a gerar dependência dos produtores às empresas detentoras das patentes industriais sobre as sementes.

A questão é mais séria do que se imagina. Está no debate a respeito da soberania dos povos sobre a perda da capacidade de escolher o quê e como produzir.

Assistam ao vídeo SEMENTES DA LIBERDADE!


A agricultura familiar é um estilo de vida, uma forma de estar na terra... interagir e se relacionar com o ambiente. O conhecimento popular está desenhado nos quintais cuidados ao redor do Brasil, onde se cultiva e, portanto se guarda, uma infinidade de informações vivas. São diversas variedades de verduras, frutas, plantas medicinais para a alimentação e renovação dos nutrientes da terra.

Movimento Agroecológico

A Agroecologia interage com a realidade rumo à transição do modelo de produção agronegócio para o modelo agroecológico. Atua em três dimensões diferentes, simultâneos e complementares entre si: 
1. Uma ciência: atua como novo campo do conhecimento nos cursos técnicos e nas universidades, em cursos de graduação e pós-graduação em Agroecologia, bem como nos Centros Acadêmicos e Núcleos de Agroecologia que integram toda a diversidade de personagens em um mesmo cenário: alunos, professores, poder público e comunidades rurais.
2. Um conjunto de práticas para uso do solo e resgate das raízes humanas: agricultores agroecológicos são aqueles que produzem em pequenos espaços, em escalas reduzidas e com o máximo de diversidade possível. Esta prática lhes permite ler a paisagem onde vivem para conceber, manejar e aproveitar os recursos naturais do próprio lugar. Desse modo, sabem otimizar sua produção com o mínimo de danos ao ecossistema do qual fazem parte. Os consumidores nas feiras agroecológicas incentivam estas práticas, de modo a contribuir para sua valorização, continuidade e disseminação. Forma-se, assim, uma rede de incentivo à produção agroecológica.
3. Um movimento social: organização em redes de experiências criadas para afinar o diálogo e produzir intercâmbio de saberes entre conhecimento acadêmico e o conhecimento popular dos agricultores rurais e dos consumidores urbanos. As principais redes em agroecologia no Brasil: Articulação Nacional de Agroecologia e Agroecologia em Rede (base cadastral de experiências).

Como ter acesso aos produtos agroecológicos?

Os produtores agroecológicos fornecem para os circuitos de comercialização em feiras agroecológicas, de modo a alimentar o mercado consumidor nos centros urbanos.
Também tem as feiras agroecológicas de: Teresópolis- RJ. quartas e sábados. Local: Centro. quartas-feiras. Local: Próximo ao Sesc de Teresópolis. Formam-se, assim, os elos nas redes de consumo consciente, que por sua vez fortalecem a continuidade do processo iniciado na etapa da produção.
Aline vendendo hortaliças na Feira Orgânica do Flamengo-RJ
A grande virada da Agroecologia está na capacidade de construir socialmente uma cultura baseada na interação entre experiências de vida, o que gera muito mais do que um novo modelo agrícola, mas a emancipação e a consciência necessárias para que os próprios indivíduos (produtores, consumidores e articuladores) interfiram na sua realidade.

A troca de saberes é fundamental para nivelamento entre campos do conhecimento e para valorização do conhecimento tradicional como re-descoberta de quem nós somos e como nos relacionamos. O objetivo é sensibilizar as pessoas para valorização da agricultura familiar e para a possibilidade de transformação que pode ser impressa na vida de cada um e de todos nós.

 Vamos à Feira?

 Aline Chaves
 Pequisadora dos ciclos alimentares e alquimista de vegetais vivos

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Aqui mora um pequeno resumo dos muitos anos dedicados à pesquisa, onde uso o meu próprio corpo como experimento.

Peço gentilmente que não utilizem as nossas publicações para fins comerciais. Só porque não vale à pena promover-se financeiramente às custas do esforço e criatividade alheios.

A Vida vem da Vida!

Com carinho,

Aline Chaves
A moça que planta nas panelas

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Baseado no trabalho disponível em http://panelasdecapim.blogspot.com.
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